O que fazer agora

O que fotografar e guardar depois do acidente de trabalho (antes que as provas sumam)

Escritório Gomes Ribeiro Revisado por advogado · Atualizado em 10 set, 2026 · 7 min de leitura

Você se machucou trabalhando e, desde então, a papelada foi se espalhando. Um atestado na carteira, um exame na gaveta, um print no grupo da família, uma receita amassada no bolso da calça. Cada papel parecia pequeno demais para merecer cuidado.

Até que alguém te fez a pergunta que muda tudo:

“Se você precisar provar o que aconteceu, o que você tem na mão hoje?”

Se a resposta for “a minha palavra”, este artigo chegou na hora certa. Porque num caso de acidente de trabalho, muitas vezes não vence quem tem razão. Vence quem consegue provar o que aconteceu.

Prefere ouvir essa explicação? Este tema tem um episódio inteiro no nosso canal do YouTube, o episódio 3 da série “Me acidentei. E agora?”: “A papelada que pode decidir o seu caso de acidente de trabalho (guarde tudo)”. Assista e volte aqui para usar o checklist por escrito.

[INSERIR EMBED DO VÍDEO — Ep. 3 da série “Me acidentei. E agora?” — canal @GomesRibeiroAdvocacia]

Por que a prova pesa tanto num caso de acidente?

Para um acidente de trabalho ser reconhecido, em regra, precisa ficar clara uma ligação entre três pontos: o acidente que aconteceu, a lesão que você sofreu e o efeito disso na sua capacidade de trabalhar.

O acidente, a lesão, a consequência.

Os documentos são o fio que costura esses três pontos. Sem eles, cada ponto fica solto. O que é óbvio para você, que viveu tudo, vira dúvida para quem só conhece a história pelo papel: o perito, o juiz, o médico do INSS.

E tem um detalhe que joga contra você: a empresa guarda tudo. Ficha de registro, controle de ponto, ficha de EPI, relatório interno. Quando a discussão chega, ela abre uma pasta organizada. Se do seu lado só existir memória, a disputa começa desequilibrada.

O que some primeiro depois do acidente?

O tempo apaga as provas numa ordem quase previsível, e conhecer essa ordem ajuda a decidir o que salvar primeiro.

O local muda em dias. A máquina ganha a proteção que faltava, o piso é limpo, o andaime é desmontado, o equipamento velho desaparece do galpão.

As marcas no corpo mudam em semanas. O hematoma some, o corte cicatriza, o inchaço baixa. O que a lesão mostrou no início nunca mais se repete igual.

As testemunhas somem em meses. Colega muda de turno, é transferido, pede as contas, volta para o interior. O contato que hoje está a uma mesa de distância pode ser impossível de achar daqui a um ano.

E a memória, a sua inclusive, embaça o tempo todo. Seis meses depois, a data exata, o nome do encarregado, a ordem dos fatos, tudo perde nitidez. O papel não esquece. A sua lembrança, com todo o respeito, esquece.

Checklist: o que guardar, item por item

1. Tudo que for médico. Atestados, laudos, exames de imagem, receitas, comprovante de cada atendimento. Cada papel que descreve a sua lesão, com data, é um tijolo da sua história. Um cuidado que vale ouro: sempre que possível, veja se o documento traz o diagnóstico, o famoso CID, e a data. Um atestado que só diz “afastado por dois dias”, sem dizer do quê, ajuda bem menos.

2. A CAT. Você tem direito a uma cópia. Ela é o documento que liga o atendimento médico ao acidente. Se a empresa não emitiu, existe caminho para registrar mesmo assim, e explicamos esse passo no artigo sobre a recusa da CAT.

3. O que mostra como o acidente aconteceu. Fotos e vídeos do local, do equipamento, da máquina, da falta de proteção, da altura, do piso. E fotos das suas lesões, feitas ao longo do tratamento, porque a evolução também conta uma história.

4. Os avisos que você mandou. A mensagem para o chefe, o e-mail, o print da conversa. Guardado, aquele aviso deixa de ser só um aviso: vira prova de que a empresa soube do acidente, e de quando soube.

5. As testemunhas. Nome completo e contato de quem viu, de quem socorreu, de quem trabalhava ao lado. Não precisa pedir depoimento a ninguém nem falar em processo. Basta o contato salvo, hoje, enquanto é fácil.

6. Os comprovantes de gasto. Remédio, transporte para o tratamento, consulta ou exame que você pagou do próprio bolso. Junte as notinhas, mesmo as pequenas. A depender do caso, esses gastos podem fazer diferença mais para frente.

Como fotografar do jeito certo?

Foto de prova tem três regras simples.

Primeiro, contexto antes do detalhe: uma imagem aberta que mostre onde a cena está, depois as aproximações. O detalhe sem o contexto vira um close que ninguém sabe de onde é.

Segundo, vídeo curto além da foto: girar o celular por alguns segundos captura o ambiente inteiro, a distância, a altura, o barulho, o que a foto recorta.

Terceiro, não edite e não apague. A data e a hora gravadas no arquivo fazem parte da prova. Foto encaminhada por aplicativo perde parte desses dados, então guarde os arquivos originais no seu celular ou numa nuvem, e não somente na conversa.

Se você não tem como voltar ao local, peça a alguém de confiança. E fotografe o que estiver com você: uniforme rasgado, capacete danificado, bota, ferramenta.

Posso pedir cópia do meu prontuário?

Pode, e pouca gente usa esse direito.

Em regra, você pode solicitar cópia dos seus documentos médicos: prontuário, registro de atendimento, resultados de exame. Não é favor que o hospital ou a clínica fazem a você. São informações sobre o seu próprio corpo e a sua própria saúde.

Isso vale para atendimento particular, por convênio e pelo SUS. O caminho é pedir por escrito no setor de atendimento ao paciente da unidade. Pode haver prazo e burocracia, mas o direito existe, e o prontuário costuma ser o retrato mais fiel do que a lesão era no início.

Quais erros destroem uma prova boa?

O primeiro é entregar o documento original sem ficar com cópia. Se alguém pedir um papel seu, a empresa inclusive, fotografe antes de entregar. O original que sai da sua mão sem registro é um pedaço da sua história que talvez não volte.

O segundo é achar que papel pequeno não importa. A receita amassada, o comprovante desbotado, o cartãozinho da consulta. Quem decide o que é relevante não é o tamanho do papel, é o conjunto.

O terceiro é confiar na memória. Anote hoje, com suas palavras, como o acidente aconteceu: data, hora, setor, quem mandou, quem viu, quem socorreu, o que foi dito depois. Esse relato organiza todo o resto.

O quarto é deixar a limpeza do celular apagar o caso. Mensagem deletada para liberar espaço, foto perdida na troca de aparelho, conversa que sumiu com o grupo. Faça uma cópia de segurança fora do aparelho.

Onde guardar tudo isso?

Num lugar só. Uma pasta física para os papéis e uma pasta no celular ou na nuvem para fotos, vídeos e prints, com o nome do caso e os arquivos em ordem de data.

Não precisa entender de lei para fazer isso. Você só precisa não jogar fora a sua própria história. Organizar hoje é um presente que você entrega para você mesmo lá na frente.

Conclusão

A etapa mais silenciosa de um caso de acidente de trabalho é essa: a arrumação. Ninguém aplaude, ninguém vê, e é ela que muitas vezes decide o rumo de tudo.

Do outro lado, existe uma pasta organizada. Do seu lado, precisa existir outra.

Guarde o que é médico. Guarde a CAT. Guarde as fotos, os avisos, os contatos, as notinhas. Registre a sua versão enquanto ela está fresca. E deixe tudo num lugar só, protegido do tempo e da faxina do celular.

Não é promessa de indenização. É informação para que você não aceite o silêncio, a pressa ou explicações incompletas como resposta definitiva.

E se você quiser seguir a caminhada em vídeo, o episódio 4 da série “Me acidentei. E agora?”, no canal @GomesRibeiroAdvocacia, trata do passo seguinte: o afastamento, quem paga os primeiros dias e quando entra o INSS.

Você tem uma pilha de papéis do seu acidente e não sabe o que é essencial guardar? Envie sua situação para uma orientação inicial sobre a organização das provas do seu caso.

Conteúdo meramente informativo. Não constitui aconselhamento jurídico individual. Cada caso depende de análise de documentos.

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