Perícia judicial no processo de acidente de trabalho: como se preparar e o que levar
A intimação chegou com data, hora e endereço. Perícia médica judicial. E, junto com ela, veio um frio na barriga que todo mundo que passa por isso conhece:
“É nesse exame que tudo se decide? E se o perito não acreditar em mim?”
Vamos colocar as coisas no lugar certo desde já: a perícia é, sim, um dos momentos mais importantes do seu processo. É nela que um médico nomeado pelo juiz vai examinar você, ler os seus documentos e responder tecnicamente se a lesão existe, se ela tem ligação com o trabalho e o que ela tirou de você. Mas ela não é uma prova de sorte: é uma prova de preparo. Quem chega organizado e verdadeiro tem o cenário a seu favor. Quem chega perdido, ou tenta atuar, entrega o processo de bandeja.
Este artigo é o seu manual do dia da perícia: o que organizar antes, o que levar, como se comportar diante do perito, e o que acontece depois do exame.
O que é a perícia judicial (e o que ela não é)
No processo de acidente de trabalho, o juiz não é médico. Para responder as perguntas técnicas do caso, ele nomeia um perito, em geral especialista em medicina do trabalho ou na área da sua lesão, que examina você e os documentos e entrega um laudo respondendo aos quesitos: existe lesão? Existe nexo com o trabalho? Existe incapacidade, e de que tamanho? A sequela é permanente?
Duas confusões para desfazer logo:
A perícia judicial não é a perícia do INSS. São exames diferentes, com finalidades diferentes, e a conclusão de um não amarra o outro. A perícia do INSS terá artigo próprio nesta série.
E o laudo do perito, embora pese muito, não é a sentença. O juiz analisa o laudo junto com todas as outras provas e pode, fundamentadamente, decidir de forma diversa. Se a conclusão vier contra você, existe caminho, e ele é o tema do próximo artigo desta série. Guarde isso para não entrar na sala achando que joga uma final em jogo único.
Antes da perícia: a pasta que trabalha por você
O perito forma convicção com dois materiais: o que ele vê no exame e o que ele lê nos documentos. A segunda parte você controla por completo, e ela se prepara em quatro frentes.
A pasta cronológica. Reúna todos os documentos médicos do caso em ordem de data: o atendimento do dia do acidente, atestados, receitas, exames de imagem com os laudos, relatórios de fisioterapia, prontuários. A ordem cronológica conta a história sozinha: o antes, o acidente, o tratamento, o agora. Se você seguiu o nosso checklist de provas desde o início, essa pasta já existe; é só organizá-la.
O relatório atualizado do seu médico. Peça ao médico que te acompanha um relatório recente, com o diagnóstico (com o CID), o histórico do tratamento e, principalmente, as limitações funcionais descritas de forma objetiva: o que você não consegue mais fazer, com que intensidade, desde quando.
A lista de medicamentos e tratamentos em curso. Nome, dose, desde quando. Papel simples que demonstra continuidade e coerência.
Os quesitos e o assistente técnico. Antes da perícia, o seu advogado apresenta quesitos, as perguntas que o perito deverá responder, e pode indicar um assistente técnico: um médico de confiança que acompanha o exame e emite parecer próprio. Em casos de maior complexidade ou valor, o assistente técnico costuma ser um investimento que se paga. Converse sobre isso antes do dia marcado.
No dia: como se comportar diante do perito
Chegue com antecedência, com documento de identidade, a pasta organizada e os exames de imagem. E então aplique a regra que resume tudo:
Verdade absoluta, nos dois sentidos.
Não exagere. Perito examina gente todos os dias e reconhece exagero e simulação com facilidade: a dor teatral, a limitação que muda quando você acha que não está sendo observado, a queixa que não bate com nenhum exame. Um único momento de atuação percebida contamina a credibilidade de todas as suas queixas verdadeiras. É o erro mais caro que existe numa perícia.
E não minimize. O orgulho de quem sempre trabalhou duro faz muita gente responder “vou levando”, “dá pra aguentar”, “não é tão ruim”. O perito não anota o seu esforço de parecer forte; ele anota o que você disse. Minimizar a dor na frente do perito é testemunhar contra si mesmo.
O caminho do meio é a concretude. Em vez de “dói muito”, descreva a vida real: “não consigo mais abotoar a camisa com essa mão”, “preciso de ajuda para calçar o sapato”, “não carrego meu filho no colo desde o acidente”, “acordo de madrugada quando viro sobre o ombro”. Limitação concreta do cotidiano é a linguagem que o laudo entende.
Nos testes de movimento, vá até onde a dor real permite, e pare ali. Não force além para “provar esforço”, nem pare antes para “provar limitação”. Responda o que for perguntado, sem discursos prontos e sem discutir com o perito, mesmo que alguma pergunta pareça desconfiada: a desconfiança educadamente respondida com fatos se desfaz sozinha.
Os erros que derrubam perícias
Faltar sem justificativa é o pior de todos: além de atrasar o processo, pode ser interpretado em seu desfavor. Se houver impedimento sério, comunique o advogado imediatamente para justificar e remarcar.
Chegar de mãos vazias, “porque está tudo no processo”, desperdiça a chance de conduzir a leitura do perito pela sua pasta organizada.
Levar respostas decoradas ou texto pronto soa artificial e desperta exatamente a desconfiança que você queria evitar.
E levar acompanhante que responde por você atrapalha: quem tem que descrever a dor é quem a sente. O acompanhante pode ajudar no deslocamento e aguardar.
Depois da perícia: o jogo continua
O perito entrega o laudo no processo, e as partes têm prazo para se manifestar: concordar, pedir esclarecimentos ou impugnar pontos específicos, inclusive com o parecer do assistente técnico como contraponto. É nessa fase que muita perícia desfavorável é corrigida ou relativizada.
Por isso, ao sair do exame, anote no mesmo dia como foi: quanto tempo durou, o que foi examinado, o que o perito perguntou, o que você respondeu. Esse registro fresco ajuda o seu advogado a avaliar o laudo quando ele chegar, e a reagir com precisão.
Conclusão
A perícia judicial decide muito, mas não se decide na sorte. Ela se decide na pasta cronológica que conta a sua história, no relatório médico que traduz a sua limitação, nos quesitos bem feitos, e na sua conduta na sala: verdade absoluta, sem exagero e sem orgulho, com a dor descrita na linguagem concreta do dia a dia.
Prepare-se com antecedência, converse com seu advogado sobre o assistente técnico, e saia do exame com tudo anotado. O laudo é um capítulo importante. Com preparo, ele tende a contar a história certa; e mesmo quando não conta, o processo tem os instrumentos para corrigi-lo.
Não é promessa de indenização. É informação para que você não aceite o silêncio, a pressa ou explicações incompletas como resposta definitiva.
Você foi intimado para a perícia judicial e quer chegar preparado? Envie sua situação para uma orientação inicial sobre a organização do seu caso para o exame.
Conteúdo meramente informativo. Não constitui aconselhamento jurídico individual. Cada caso depende de análise de documentos.
Escritório Gomes Ribeiro · Revisado por Bruno Gomes Ribeiro
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